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O ganho de poder de compra dos salários em Portugal caiu para o pior nível dos últimos três anos. De acordo com o Diário de Notícias (16 de agosto), que cita os dados mais recentes do INE, o aumento nominal médio de cerca de 90 euros por mês em termos homólogos fica reduzido a aproximadamente 25 euros reais depois de descontada a inflação. É o pior resultado desde 2023 — e tem consequências diretas para quem pede crédito habitação.
Os números oficiais confirmam o diagnóstico. O índice de custo do trabalho subiu 5,4% no segundo trimestre de 2026, em termos homólogos, segundo o INE. No mesmo período, a inflação manteve-se em 3,0% em julho. A diferença entre o que os salários crescem e o que os preços sobem é o que sobra para as famílias — e essa margem encolheu.
O que os números mostram
O custo do trabalho mede aquilo que as empresas pagam por trabalhador, incluindo salário e encargos. Quando cresce 5,4% mas a inflação está em 3,0%, a fatia do aumento que realmente aumenta o poder de compra é pequena — e, em alguns sectores, já é negativa.
O Expresso reportou na mesma semana que há sectores a perder poder de compra em 2026, com o agravamento do custo de vida a pressionar sobretudo os rendimentos mais baixos. Para estas famílias, a prestação da casa não é um número abstrato: é a rubrica maior do orçamento, e é a primeira a ficar em risco quando o salário real não acompanha os preços.
O que significa para quem pede crédito
Desde 1 de agosto de 2026, o Banco de Portugal recomenda que a taxa de esforço não ultrapasse os 45% do rendimento líquido. Na prática, os bancos somam todas as prestações de crédito do agregado — habitação, automóvel, pessoal e cartões — e verificam se cabem nesse limite, com uma margem de exceção de apenas 10% dos novos contratos.
Com o salário real a crescer pouco, a equação aperta dos dois lados: a prestação não desce e o rendimento que conta para a taxa de esforço quase não sobe. Se quiser perceber como é calculado o limite, veja o nosso guia sobre como calcular a taxa de esforço passo a passo.
A título de exemplo, num empréstimo de 150.000 euros a 30 anos, com spread de 0,9% e Euribor a 12 meses em 2,939% (a 14 de agosto de 2026), a prestação ronda os 702 euros por mês. Com o limite de 45% da taxa de esforço, o agregado precisaria de um rendimento líquido de pelo menos 1.561 euros por mês — um valor que, com o poder de compra a cair, está fora do alcance de muitas famílias que o pediam há dois anos.
O que fazer com este cenário
- Reveja o orçamento antes de pedir crédito. A proteção do orçamento familiar num cenário de juros mais altos passa por testar a prestação com uma margem de segurança, não com o máximo que o banco aprova.
- Compare propostas, não apenas a taxa. O spread é negociável, mas a avaliação do imóvel e o montante financiado pesam mais do que qualquer décima de spread.
- Simule com o seu rendimento real. Use o simulador de crédito habitação com o salário líquido atual — não com o que espera ganhar.
O poder de compra dos salários não é um tema macro distante: é a variável que decide se a prestação cabe no orçamento. Num momento em que o ganho real é o mais baixo em três anos, a prudência não está na taxa que o banco oferece, mas no valor que a sua família consegue suportar de forma confortável.
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Fontes: Diário de Notícias — Ganho de poder de compra dos salários baixa para o pior nível dos últimos três anos, INE — Índice de Custo do Trabalho (2.º trimestre de 2026), INE — Índice de Preços no Consumidor (julho de 2026)